Para separar o dinheiro do MEI do pessoal, abra uma conta PJ, receba todas as vendas nela, pague o DAS e as despesas do negócio e transfira para você uma retirada fixa por mês. Registre tudo: sem controle, a parte isenta no Imposto de Renda fica limitada.

Imagine o Marcos, eletricista e MEI. Ele abre o aplicativo do banco e vê R$ 3.000 de saldo. “Ótimo, o mês foi bom”, pensa, e paga o mercado, a escola do filho e uma parcela da moto. Só que, uma semana depois, chega o fornecedor de material, e o DAS vence dia 20. O dinheiro não estava todo disponível: parte era do negócio, parte era imposto, e ele gastou tudo como se fosse salário.

Se isso soa familiar, você não está sozinho. Misturar o dinheiro do MEI com o pessoal é um dos erros mais comuns de quem trabalha por conta própria, e um dos mais fáceis de corrigir. Aqui eu explico como separar o dinheiro do MEI, quanto retirar, o que o Imposto de Renda diz sobre isso e um passo a passo com exemplo em reais.

Por que misturar o dinheiro é um risco para o MEI

Quando o dinheiro da empresa e o seu caem na mesma conta, quatro problemas aparecem:

  • Você não sabe se o negócio dá lucro. O saldo mostra o faturamento, e não o que sobra depois dos custos. Muita gente trabalha o mês todo e descobre que ganhou menos do que imaginava;
  • O dinheiro do imposto e do fornecedor some. O DAS vence todo dia 20, e o material precisa ser comprado. Se o saldo foi usado em contas pessoais, o negócio fica sem caixa;
  • O controle do limite fica no escuro. O faturamento do MEI é limitado a R$ 81 mil por ano, o que dá uma média de R$ 6.750 por mês. Sem registrar as entradas, você pode estourar o teto sem perceber;
  • A declaração fica difícil. Sem registro do que entrou, saiu e foi retirado, você não consegue comprovar o lucro e perde parte da isenção no Imposto de Renda.

A solução não exige contador nem planilha complicada. Exige uma regra simples: o negócio tem a conta dele, e você recebe um valor combinado, como um salário.

O básico: faturamento não é lucro, e lucro não é salário

Três palavras ajudam a organizar a cabeça:

  • Faturamento: tudo o que entra com as vendas e os serviços. É o que conta para o limite de R$ 81 mil;
  • Lucro: o que sobra do faturamento depois de pagar as despesas do negócio, como material, transporte, internet do trabalho e o DAS;
  • Retirada: o valor que você transfere do negócio para a sua conta pessoal. Ela deve sair do lucro, e não do faturamento.

Pense assim: o faturamento é a água que entra na caixa d’água. Parte dela é consumida pela própria casa (as despesas). Você só pode beber do que sobra, e não do que entrou.

Passo a passo para separar o dinheiro do MEI do pessoal

Passo 1: abra uma conta PJ

A conta PJ, no CNPJ do MEI, é a base de tudo. Vários bancos digitais oferecem conta para o MEI sem mensalidade, com Pix e cartão. Compare as tarifas antes de escolher. Não há obrigação legal de ter conta PJ, mas ela é o jeito mais simples de saber o que é da empresa e o que é seu.

Passo 2: faça tudo entrar pela conta da empresa

O Pix, a maquininha, o boleto e o link de pagamento devem apontar para o CNPJ. Avise os clientes e atualize a chave Pix que você divulga. Se ainda recebe na conta pessoal, comece pelos clientes novos e vá migrando os antigos.

Passo 3: pague as despesas do negócio pela conta PJ

Material, ferramentas, transporte do trabalho, internet e o DAS saem da conta da empresa. O DAS vence todo dia 20 e, para o MEI de serviços, custa R$ 86,05 em 2026 (R$ 82,05 no comércio ou indústria e R$ 87,05 em comércio e serviços). Programe o pagamento para não esquecer.

Passo 4: defina uma retirada fixa

Escolha um valor e uma data, como todo dia 5, e transfira da conta PJ para a sua conta pessoal. A retirada deve caber no lucro médio dos últimos meses, e não na necessidade do momento. Se um mês rende mais, o extra fica no caixa do negócio para cobrir os meses fracos.

Passo 5: registre as entradas e as saídas

Uma planilha ou um aplicativo simples basta. Anote cada venda, cada despesa e cada retirada, esta última numa categoria própria, como “retirada do titular”. Guarde notas e recibos das despesas. Para escolher um aplicativo, veja os melhores aplicativos para gerenciar finanças pessoais.

Passo 6: monte uma reserva do negócio

Separe uma parte do lucro para os meses de pouco movimento e para imprevistos, como a quebra de uma ferramenta. Uma referência é guardar de 3 a 6 meses das despesas fixas do negócio, junto com a sua reserva pessoal. O guia de reserva de emergência mostra como calcular.

Exemplo com números: um mês do Marcos

Veja como fica o caixa de um MEI de serviços, num mês fictício:

ItemValor
Entradas (faturamento)R$ 4.000,00
(−) Despesas do negócio (material, transporte, internet)R$ 1.200,00
(−) DAS de serviçosR$ 86,05
(=) Sobra do mêsR$ 2.713,95
(−) Reserva do negócioR$ 400,00
(=) Disponível para retiradaR$ 2.313,95

O Marcos combina uma retirada fixa de R$ 2.300 por mês, e os R$ 13,95 que sobram ficam no caixa. A partir daí, ele sabe que o negócio dá lucro, que o imposto está pago, que há uma reserva e que o dinheiro pessoal vem de um valor definido. A cabeça fica mais leve.

Quanto retirar e o que o Imposto de Renda diz

A retirada não é totalmente livre de imposto, e este é o ponto que mais surpreende o MEI. Sem escrituração contábil, a parte isenta do que você retira é limitada a um percentual da receita bruta anual, segundo as respostas da Receita Federal sobre o IRPF 2026:

Tipo de atividadeParte isenta sobre a receita bruta
Comércio, indústria e transporte de carga8%
Transporte de passageiros16%
Prestação de serviços em geral32%

Se o MEI vende produtos e também presta serviço, separe a receita de cada atividade e aplique o percentual de cada uma. O que passa da parte isenta entra como rendimento tributável recebido de pessoa jurídica na declaração. O pró-labore, quando existe, também não é isento.

Voltando ao exemplo do Marcos, com faturamento de R$ 48.000 no ano, a parte isenta de serviços é de R$ 15.360 (32%), ou R$ 1.280 por mês. A retirada dele de R$ 2.300 soma R$ 27.600 no ano, e R$ 12.240 passam da parte isenta.

Mas existe uma saída: se o MEI mantiver escrituração contábil que comprove o lucro, a parte isenta pode ser maior. Os R$ 48.000 do Marcos menos R$ 14.400 de despesas deixam um lucro comprovado de cerca de R$ 33.600 no ano, maior que a retirada. É por isso que registrar entradas, despesas e retiradas vale tanto.

O cálculo é simplificado e de exemplo, e a regra tem detalhes. Com a nova isenção do Imposto de Renda, muita gente com renda baixa acaba sem imposto a pagar, mas isso depende da soma dos rendimentos do ano. Veja isenção do IR até R$ 5 mil e, para decidir, converse com um contador. As regras oficiais estão no site da Receita Federal.

Obrigações do MEI para não esquecer

Separar o dinheiro ajuda a cumprir três obrigações:

ObrigaçãoO que éPrazo
DASGuia mensal de imposto do CNPJDia 20 de cada mês
DASN-SIMEIDeclaração anual do faturamento do MEI, obrigatória mesmo sem faturarAté 31 de maio de cada ano
IRPFDeclaração de renda da pessoa física, só para quem se enquadra nos critériosEm 2026, de 23 de março a 29 de maio

Para a declaração de 2026, quem teve rendimentos tributáveis acima de R$ 35.584 no ano era obrigado a declarar o IRPF. O limite pode mudar de um ano para outro, então confira o do ano. A formalização, o DAS e a DASN-SIMEI são feitos no Portal do Empreendedor.

Se você está começando e ainda avalia se vale abrir o MEI, veja renda extra com baixo investimento.

Conta PJ ou conta pessoal: qual usar?

O ideal é ter as duas, cada uma com a sua função. A conta PJ recebe as vendas e paga as despesas, e a pessoal recebe a retirada e paga a sua vida. Veja as diferenças:

Conta PJConta pessoal
RecebeVendas e serviçosRetirada mensal
PagaMaterial, DAS, ferramentasCasa, mercado, lazer
Ajuda aMedir lucro e emitir comprovantesControlar o orçamento da família

Se você usa cartão de crédito para despesas do negócio, prefira um cartão PJ ou, pelo menos, anote cada compra como despesa da empresa. As dicas de como usar o cartão de crédito sem cair em dívidas valem para os dois lados.

No lado pessoal, a retirada vira a renda que alimenta o seu orçamento. Monte o seu com o guia de como controlar o orçamento.

5 erros comuns de quem mistura as contas do MEI

  1. Tirar dinheiro “quando precisa”. Sem retirada fixa, o caixa vira uma torneira aberta;
  2. Confundir faturamento com lucro. O que entra não é todo seu;
  3. Pagar o DAS só quando lembra. O atraso gera encargos e pode travar benefícios;
  4. Esquecer de guardar notas e recibos. Sem comprovante, você não prova as despesas nem o lucro;
  5. Passar do limite de R$ 81 mil sem perceber. Acompanhe o faturamento acumulado mês a mês.

Perguntas frequentes sobre separar o dinheiro do MEI

O MEI precisa ter conta PJ?

Não é obrigatório por lei, mas é a forma mais simples de separar o dinheiro da empresa do pessoal. Muitos bancos digitais oferecem conta PJ para o MEI sem mensalidade.

Como separar as finanças pessoais das do MEI?

Abra uma conta PJ, receba todas as vendas nela, pague as despesas e o DAS pela empresa, e transfira uma retirada fixa por mês para a sua conta pessoal. Registre todas as entradas, saídas e retiradas.

Quanto o MEI pode retirar por mês?

O ideal é retirar do lucro, que é o faturamento menos as despesas e o DAS, e não do faturamento. Sem contabilidade, a parte isenta no Imposto de Renda é de 8%, 16% ou 32% da receita bruta, conforme a atividade.

MEI tem pró-labore?

O MEI não tem pró-labore obrigatório, e a contribuição ao INSS já está no DAS. Segundo a Receita, valores pagos ao titular como pró-labore não são isentos de Imposto de Renda e entram como rendimento tributável.

Qual é o limite de faturamento do MEI em 2026?

R$ 81 mil por ano, o que dá uma média de R$ 6.750 por mês. Se passar, procure o Portal do Empreendedor ou um contador, porque, conforme o quanto passou, o MEI paga a diferença ou é desenquadrado.

Quando vence o DAS do MEI?

Todo dia 20 de cada mês. Em 2026, o valor é de R$ 82,05 para comércio e indústria, R$ 86,05 para serviços e R$ 87,05 para comércio e serviços.

O MEI precisa declarar Imposto de Renda?

A DASN-SIMEI, declaração anual do CNPJ, é obrigatória para todo MEI até 31 de maio, mesmo sem faturar. O IRPF, da pessoa física, só é obrigatório para quem se enquadra nos critérios do ano, como rendimentos tributáveis acima de R$ 35.584 (declaração de 2026).

Seu próximo passo

Esta semana, faça três coisas: abra a conta PJ (se ainda não tem), calcule o seu lucro médio dos últimos três meses e defina uma retirada fixa e uma data. Só de ter esse combinado com você mesmo, o mês deixa de ser uma surpresa.

E você, já separa o dinheiro do seu negócio do pessoal? Conta nos comentários, que eu leio todos.

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Coach Financeiro e educador com mais de uma década de experiência. Ajudo você a dominar seu dinheiro com estratégias realistas, sem termos complicados. Acredito que finanças saudáveis começam com autoconhecimento e planejamento — e estou aqui para guiar cada passo. ✨

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