Marcelo Guterman

Saber esperar

Saber esperar

Se pudéssemos resumir todas as lições de finanças em uma só, certamente a regra de ouro, aquela que podemos considerar a mãe de todas as regras, seria esta: saber esperar.

Saber esperar é uma virtude que se adquire com a maturidade. Ou melhor, o saber esperar é uma medida da maturidade. Uma pessoa que não sabe esperar é imatura, por mais anos que leve nas costas. E, ao contrário, um jovem que aprendeu a esperar mostra uma maturidade admirável.

São já clássicos os experimentos com crianças, em que se propõe a escolha entre comer um doce imediatamente, ou esperar 15 minutos e então poder comer dois doces. As crianças que sabem esperar não só tem uma recompensa por isso (comer um doce a mais), mas mostram-se mais aptas para o aprendizado.

O crédito foi inventado para aqueles que não sabem ou não podem esperar. Há um desejo de consumo que precisa (precisa?) ser satisfeito hoje, e o crédito é a ponte que liga o amanhã ao agora. Como que por mágica, não é necessário mais esperar para obter o que se quer ou o que se precisa.

Obviamente não sou contra o crédito. Há situações em que fazer dívidas chega a ser indispensável. A compra de um imóvel é um exemplo clássico. Muitas vezes, o imóvel custa muitos anos da poupança de uma família. E simplesmente não dá para morar na casa da sogra até juntar todo o dinheiro necessário. Portanto, o financiamento imobiliário é a única saída.

Outro exemplo em que o crédito é necessário: gastos inesperados. Um acidente, uma doença, o desemprego. São situações em que a dívida pode ser a única saída.

Mas em um país como o Brasil, em que as taxas de juros ainda são pornográficas, é preciso tomar muito cuidado com as dívidas, mesmo nos dois casos acima. Saber esperar, nesses casos, é abrir mão de todo o consumo supérfluo, e até mesmo do necessário (veja o post O essencial, o necessário e o supérfluo), para sair da dívida o mais rapidamente possível. Ou seja, se não é possível esperar para comprar o apartamento, ou se a vida nos prega uma peça, é preciso mudar o estilo de vida, e colocar outros itens de consumo na fila de espera.

E o que dizer, então, daquele consumo que poderia, de fato, esperar? Endividar-se para comprar algo que não é necessário naquele momento talvez seja o melhor exemplo de imaturidade financeira. A criança mimada não sabe esperar. O adulto mimado também.

Este fenômeno acontece também com os países. Estamos todos acompanhando a tragédia grega. A Grécia aproveitou a taxa de juros baixa proporcionada pela sua adesão à Zona do Euro, e fez dívidas como se não houvesse amanhã. Note, portanto, que, mesmo com taxas de juros muito baixas, é possível quebrar. Ou seja, mesmo depois das taxas de juros no Brasil atingirem níveis mais civilizados, endividar-se pode levar o indivíduo à bancarrota.

Voltemos à Grécia. A Grécia não salvou bancos. A Grécia não teve bolha imobiliária. O problema da Grécia é exclusivamente de um povo que teve o incentivo de consumir tudo e já, tarefa muito facilitada pelo crédito fácil e farto. A dívida grega é resultado do financiamento de uma máquina de consumo insustentável. Alguns exemplos retirados do livro Boomerang, já comentado aqui:

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