Fabio Portela

Análise da Eletropaulo depois do reajuste tarifário

Publicado por em 17.julho.2012    Tags: , , ,

Análise da Eletropaulo depois do reajuste tarifário

Como os leitores sabem, uma de minhas empresas preferidas até bem pouco tempo era a Eletropaulo. Baixos índices P/L, P/VPA, excelente ROE, boa liquidez corrente, boas margens líquida e bruta… enfim, tudo indicava ser uma boa empresa. Mas, recentemente, houve o reajuste das tarifas do setor de energia. Por conta disso, e tendo em vista que muitos leitores vinham pedindo uma nova análise da empresa, eu resolvi fazer minhas contas a fim de verificar a ação mais racional a ser tomada a partir de agora. Vamos lá…

Talvez esse seja o post em que eu mais esteja me arriscando. Afinal, o cenário é ridicularmente incerto. O único elemento de certeza diz respeito a algo que nenhum investidor gosta de ouvir – as receitas da empresa diminuirão bastante, assim como o seu lucro e o principal atrativo da Eletropaulo, os gordos dividendos que a empresa vinha distribuindo ao longo dos últimos anos. O impacto da revisão tarifária, que levou a uma redução média na tarifa da empresa na casa de 9,33%, será sentido. Mas, para piorar as coisas, esse reajuste terá efeitos retroativos a julho do ano passado, quando os novos valores deveriam ter começado a incidir. Parece pouco, mas o impacto do reajuste tarifário pode implicar uma redução nos lucros da companhiae, portanto, nos dividendos. Vários analistas têm sinalizado que a empresa deverá passar a distribuir como dividendo o mínimo legal – 25% de seu lucro líquido.

Uma projeção pessimista…

Resolvi tentar estimar o impacto da revisão nas cotações e nos dividendos. Adotei como base para os cálculos um cenário bem ruim, com uma queda de 50% no lucro líquido da empresa partindo do lucro por ação base do ano passado, R$ 7,71. Isso significa que esse ano o LPA da empresa cairia para algo em torno de R$ 3,85. Entre 2012 e 2015, quando ocorrerá o próximo ciclo de revisão, adotei como premissa uma queda do LPA da ordem de 5% ao ano, tendo em vista que os custos da companhia provavelmente continuarão a crescer e os reajustes tarifários serão pífios. A partir de então, considerei que em 2015 o ciclo de reajuste seria mais benéfico para a empresa, com um reajuste que impulsionaria os lucros para um crescimento médio de 8% ao ano a partir de então. Nessas condições, o lucro por ação evoluiria nos seguintes termos:

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A cotação média esperada leva em consideração que o P/L médio da empresa se manterá nos níveis apresentados nos últimos anos (em torno de 4). Isso significa dizer que, ainda em 2012, é possível esperar um recuo justificado da cotação até R$ 15,42. Os dividendos por ação podem recuar até a casa de R$ 0,96 (25% do lucro por ação esperado). O índice P/L indicado na quinta coluna (da esquerda para a direita) se refere ao preço atual, em torno de R$ 20,00. A coluna do Dividend Yield se refere ao yield esperado se o valor da ação realmente cair ao ponto da cotação média esperada para 2012. A partir de 2015, com o novo ciclo de reajuste, espero um reajuste dos dividendos para a casa de 50% do lucro líquido da empresa, o que aumentaria o yield.

No fim das contas, o cenário pessimista indica que, somados os dividendos (R$ 21,79 pagos até 2022) e a apreciação da ação (cerca de 25% em relação ao preço de hoje), teríamos um ganho de R$ 27,55 por ação – algo em torno de 8,19% ao ano, ou 137,75% no total.  Nada espetacular, mas ainda acima da Selic de hoje. Mas, mesmo assim, ao custo de muita volatilidade, redução brusca nos dividendos e alguma esperança de que o ciclo tarifário de 2015 seja benéfico para a companhia. E sem considerar os impactos de que eventual decisão judicial condene a empresa a pagar a famosa dívida de R$ 1 bilhão…

Reitero que não sou analista de investimentos. Não estou recomendando nada a ninguém; nem compra, nem venda. E nem poderia, já que não sou certificado para tanto. Esses são apenas os cálculos que efetuei para minha própria análise. De minha parte, me desfiz de cerca de 40% dos papéis que detinha em minha carteira há 1 mês e meio, como já informei. E estou pensando em vender o restante –  ainda mantenho um pouco por desejar ver o impacto real do reajuste nos balanços da empresa ao longo dos próximos balanços. Pode ser, afinal, que o cenário extremamente pessimista não se concretize (ou pode ser que a realidade seja ainda pior). De qualquer modo, manter uma parte considerável da carteira alocada em ações da Eletropaulo pode ser, no momento, algo bastante perigoso.

 

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