A mesada é um dos mais valiosos instrumentos de educação financeira para crianças. Mas é apenas isso. Um instrumento. Se bem usado e bem calibrado pode ser útil, resolver problemas, potencializar soluções e ajudar na educação financeira. Mas se for mal usada pode também machucar, atrapalhar, ser improdutiva. Deixar cicatrizes.
A mesada deve ser estabelecida em função da idade e do ambiente social, com ênfase na situação econômico-financeira da família. E ajustada, principalmente, de acordo com o perfil de cada criança.
Por idade entenda-se maturidade, nível de compreensão e de responsabilidade. O dinheiro tem um grande poder libertador, de proporcionar independência às pessoas. Então, assim como a liberdade, o dinheiro deve estar associado com responsabilidade.
A noção temporal é igualmente relevante. Crianças pequenas enfrentam dificuldade para compreender, planejar e esperar por intervalos que ultrapassem o seu horizonte temporal. Normalmente é mais fácil associar ao ciclo escolar. Assim, deve-se começar com semanadas, aumentar para quinzenadas e por fim, à medida que as crianças crescem, pode-se chegar ao período mensal , sempre avaliando a maturidade da criança. No caso de crianças pequenas, deve-se evitar planejamentos que visem prazos que ultrapassem as próximas férias ou o próximo aniversário, podendo estender-se por um ou dois anos para as mais crescidas ou mais maduras, sempre com assistência dos pais.
Existem teorias que sugerem calcular o valor da mesada a partir da idade das crianças, atribuindo R$ 1 para cada ano de vida, por semana. É um parâmetro que se mostra injusto e inadequado para muitas famílias, pois não considera outros fatores e nivela crianças pobres com as mais privilegiadas; as que vivem no interior e as que vivem em grandes centros; as conscientes e as deslumbradas, famílias com filhos únicos com as mais numerosas.
Além disso, crianças que demonstram ter uma relação sadia com o dinheiro devem ter essa postura reconhecida. E estimulada. Manter valores muito baixos dificulta esse avanço na relação dela com o dinheiro.
O ambiente social também é importante. Em casos de dúvida é bom os pais conversarem com os pais dos amigos de seus filhos para avaliar as práticas e os valores de cada um. Em termos de socialização, o ideal é que o valor da mesada dos seus filhos fique sempre compatível com seu círculo de amizades. Na dúvida, é bom ser conservador.
Também é importante que a mesada reflita para as crianças a situação da família. Uma família que viva com dificuldades financeiras não deveria oferecer uma mesada polpuda aos filhos. Da mesma forma que famílias mais abastadas não devem impor restrições financeiras rigorosas aos filhos. Atitudes como essas podem levar ao distanciamento dos valores e da realidade da família e dificultar a compreensão por parte das crianças.
Sendo a mesada um instrumento de educação financeira, os pais devem procurar informações e orientação sobre as melhores práticas nessa área. Dentre elas, com certeza, não está o uso da mesada como instrumento de coerção ou estímulo. Pelo contrário.
A mesada é um instrumento genérico que funciona para ensinar às crianças como os adultos assalariados deveriam gerir seus recursos. Uma espécie de estágio, de treinamento. Mas bem sabemos que salários não são as únicas fontes de renda. E que também não são garantidos para a vida toda. Eles podem desaparecer ou podem crescer pelo mérito da evolução profissional. Talvez essa idéia possa ser compartilhada, mas nunca condicionar ou potencializar a mesada como meio de punição.
Para que não fique dúvida, a abordagem desse artigo foi somente em relação à mesada, àquela quantia definida e regular de dinheiro que foi combinada entre pais e filhos.
Nada impede de o dinheiro, assim entendido valores isolados, ser utilizado nas duas situações, como acontece na vida adulta. Quem mais se esforça, mais se destaca e melhor aproveita as oportunidades, muitas vezes faz por merecer uma remuneração adicional. É um dos princípios do empreendedorismo.
Também quem infringe alguma regra ou causa prejuízos a outrem muitas vezes deve responder por isso. Algumas vezes com o próprio patrimônio ou, em outras palavras, com seu próprio dinheiro.
O pior que poderia acontecer seria os pais tentarem se esconder atrás da mesada, usando-a como instrumento de pressão, de recompensa ou de ameaça, ao invés de se preocuparem com a educação efetiva dos filhos.
O uso da mesada, então, deve ser precedido de reflexões e séria avaliação por parte dos pais, de orientações claras, periódicas e constantes aos filhos e de muita disciplina das duas partes. Os pais devem respeitar os valores e prazos de pagamento das mesadas da mesma forma que respeitam seus compromissos junto às instituições financeiras. As crianças devem demonstrar capacidade para gerir seus recursos e responsabilidade. E a mesada não deve ser usada como meio para punir ou recompensar as crianças, muito menos ser relacionada ao desempenho escolar ou à realização de tarefas domésticas.
Sucesso e Prosperidade!




