Álvaro Modernell

Mesada na volta às aulas

Publicado por em 02.agosto.2010    Tags: , ,

Mesada na volta às aulas

Aproveitamos o período de volta às aulas para abordar e esclarecer uma das dúvidas mais frequentes de pais e mães sobre educação financeira: a mesada pode/deve ser vinculada ao desempenho escolar?

A resposta simples e direta é NÃO. Mas vamos analisar e entender o porquê dessa resposta.

Primeiro, gostaria de registrar que essa posição é praticamente um consenso entre quase a totalidade dos especialistas em educação financeira infantil. Coisa rara. Em diversos fóruns, na literatura ou em conversas informais praticamente não há divergências sobre esse posicionamento.

O pagamento da mesada não deve ser vinculado ao desempenho escolar porque isso poderia contribuir para o desenvolvimento de uma personalidade mercenária nas crianças.

Também não é recomendável porque alguns pais poderiam confundir as coisas e tentar compensar eventual falta de comprometimento com o ensino dos filhos por meio de estímulo financeiro às crianças. Pais e filhos sairiam perdendo.

Um bom desempenho escolar, ou pelo menos comprometimento da criança para que isso aconteça é uma obrigação. E não deve depender de estímulo financeiro para isso. Os pais devem dar atenção, ajuda, livros, apoio. Mas não dinheiro.

A mesada, por outro lado, é uma iniciativa voluntária dos pais. Não é uma obrigação. Pelo menos não até que se comprometam com isso. Mas não deve ser apresentada como remuneração em troca disso ou daquilo. É um instrumento de educação financeira que serve para as crianças vivenciarem experiências que lhes serão úteis para a vida toda. E também para que criem um certo grau de independência. Inclusive nos aspectos financeiros.

Um dos riscos de vincular o pagamento ou o valor da mesada ao desempenho escolar é a possibilidade de as crianças manipularem as notas. Deixarem cair propositalmente em algum momento para depois negociar com os pais, em troca de dinheiro, a elevação ou a manutenção das notas. E isso pode se repetir muitas vezes, sempre que a criança quiser mais dinheiro. Há crianças que são mestres em manipular os pais. Imagine se forem remuneradas por isso.

Mesada não é remuneração por desempenho escolar. Nem por bom comportamento. Também não é salário. Não é prêmio. Não é isca. Nem mesmo instrumento de controle sobre os filhos.

A mesada é um instrumento de educação financeira que deve ser aplicado com inteligência, com sensibilidade e com responsabilidade. É um instrumento que dá oportunidade aos filhos, mas que não desonera os pais do compromisso de orientarem os filhos sobre questões financeiras. E de acompanharem o uso do dinheiro de maneira adequada.

Se a mesada não estiver sendo bem usada, não culpe apenas seus filhos. Reflita.

4 Respostas para “Mesada na volta às aulas”

  1. Gimenez
    Gimenez Says:

    Fiquei surpreso: sempre pensei que utilizar a mesada como recompensa de bom desempenho escolar seria uma boa idéia quando viesse a ter um filho.

    Vejo a questão de maneira diferente. No texto está escrito “Um bom desempenho escolar, ou pelo menos comprometimento da criança para que isso aconteça é uma obrigação”, mas nós, como adultos, temos que trabalhar, respeitar regras e cumprir metas em nossos empregos com um único objetivo: ganhar dinheiro. Pode-se dizer o que for sobre gostar do que se faz e sobre ter satisfação pessoal, mas o fato é que ninguém trabalharia se não fosse pago por isso. Por que uma criança tem que encarar a escola como uma obrigação, cuja recompensa estará anos e anos no futuro? Na cabeça da criança não é um tanto sem lógica dar um duro danado para tirar boas notas e não ter algo palpável como recompensa? Crianças são mais imediatistas, penso eu.

    E veja, o fato de atrelar a mesada ao desempenho escolar não implica em omissão no acompanhamento de como o dinheiro será gasto, nem em aplicação de um bônus para recuperação de notas ruins, etc.

    Bem, o fato é que as informações contidas no post não foram argumentos suficientes para mudar minha opinião, mas se de fato estou errado, gostaria de saber mais sobre o assunto.

    Abraços,

    Gimenez.

  2. mario milionário
    mario milionário Says:

    Além do aprendizado de como gastar a mesada, veja o outro lado. Aprender a gastar menos do que ganha.

    http://decidi-virar-milionario.blogspot.com/2010/06/investidor-de-mesada.html

  3. Álvaro Modernell
    Álvaro Modernell Says:

    Prezado Gimenez,

    Agradeço sua atenção em comentar meu artigo. Inicialmente, registro que respeito e valorizo a diversidade de opiniões. Não tenho a menor pretensão de parecer o “dono da verdade” ao compartilhar minhas opiniões com os leitores.

    A comparação do comprometimento de uma criança com seus estudos em relação a de um trabalhador com seu emprego, a meu ver, não é adequada. O trabalhador, em muitos casos, trabalha realmente motivado pelo salário. Ele precisa atender ao seu empregador para manter e fazer jus ao seu salário. No caso da criança com seus estudos a relação é diferente. A criança não deve estudar e fazer deveres para agradar aos pais ou professores. Deve ser estimulada a fazer isso porque faz parte do seu compromisso social e para ficar melhor preparada para a vida adulta.

    Realmente crianças são mais imediatistas. Mas não significa que tenham que ser remuneradas ou premiadas para que percebam resultados dos seus estudos ou bom desempenho escolar. A questão educacional deve ter sempre visão de longo prazo, na formação do caráter e da personalidade da criança, bem como na formação da sua bagagem cultural.

    Obviamente que atrelar mesada ao desempenho escolar não significa necessariamente omissão no acompanhamento escolar. Mas pode mascarar essa situação em muitos casos. Já presenciei isso.

    Para que fique claro, a posição que externei, da qual tenho plena convicção, é de que a mesada não deva ser atrelada ao desempenho escolar. O que não significa, conforme já abordei em outros artigos, que a criança não possa ser premiada ou recompensava eventualmente, e sem vínculo direto a uma ou outra nota, mas pelo resultado de um período razoável de bom desempenho. A premiação, seja com presentes ou mesmo dinheiro, pode ocorrer, mas não deveria ser condicionada ou obrigatória. Poderia ser fruto da iniciativa dos pais em reconhecimento e incentivo ao bom desempenho.

    Espero ter sido claro. Respeito opiniões contrárias e continuo à disposição.

    Att.

    Álvaro Modernell

    Mais Ativos Educação Financeira
    http://www.maisativos.com.br
    contato@maisativos.com.br

  4. Silvia Alambert
    Silvia Alambert Says:

    Prezado Gimenez, não há certo ou errado na maneira sobre como cada família escolhe a forma de introduzir a mesada aos seus filhos. Há famílias que nem são adeptas à mesada.
    A mesada é apenas um dos recursos da educação financeira para que crianças e jovens possam entender a dinâmica de circulação do dinheiro.

    Não é um salário por entendermos que educação – e não só em finanças – não é um emprego, é um investimento de longo prazo que irá ampliar as possibilidades das crianças no futuro.

    Se formos comparar a situação, o que poderemos encontrar será o seguinte cenário: a criança entende que está sendo remunerada para estudar e ter boas notas (tem um emprego e um salário). Ela poderá ser levada a pensar que aquele emprego (estudo)é chato, que nem precisa daquele salário (elas não pagam as contas) e resolve que irá se demitir.

    Como seria lidar com essa situação ?
    Imagine se nós, enquanto adultos, resolvemos nos demitir porque não gostamos do emprego e tal. Quanto tempo conseguiríamos sobreviver sem um fluxo de caixa, caso não tenhamos nos preparado para isso ?

    Por isso o não aconselhamento de remunerar por bom desempenho, comportamento ou boas notas. Associe estas coisas com tipo uma ida ao cinema, um jantar diferente ou a um ” parabéns” (às vezes fazemos coisas fantásticas e ninguém nos remunera por isso…)

    A idéia da mesada é só uma ferramenta para mostrar às crianças que o dinheiro mal empregado pode acabar antes do final do mês e que pode ser sofrido ficar sem ele para fazermos as coisas que gostamos ou alcançarmos objetivos maiores, então, é preferível que as crianças aprendam isso com a mesada e não quando tiverem salários de gente grande.
    ;-)


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